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Há quem diga que não vai dar certo

Foto encontrada em Brandy Melville/Pinterest

Eu vivo sumindo, percebeu? Acho que não. Você também faz isso, e faz muito bem. Juntos ocupamos um espaço imenso chamado: o vazio do coração do outro. Somos a capa de um livro esquecido nos fundos empoeirados da estante daquela sala que ninguém entra. E graças a Deus que não. Difícil explicar a bagunça que a gente é. Protagonistas figurantes daquele amor totalmente sem chances de vingar, para quem insisto em voltar de tempos em tempos. E assim comemoramos uns mil e tantos dias de vais, vens, vírgulas e fins. 

Você bate na porta, eu abro. E o resto das nossas linhas, a gente escreve em silêncio, quase sempre sem ninguém saber. Eu vivo sumindo, e acho que tenho medo de que um dia eu me encontre em alguma esquina de você. Quem me vê pelos cantos, pedindo mais uma dose de qualquer coisa com álcool pensa que ando sem ter para quem voltar. Acontece que eu sempre tenho você pra voltar. E sempre volto quando canso de mim. Quando canso de voar. Quando canso de fingir de ser só. E você me tem também. Do seu jeito ainda mais descarado que o meu.

Então amanheço o dia viajando para a cidade mais deserta e incerta distante de você. Eu não deixo recados, e você segue em frente. Um dia comum, talvez, não sei. E a gente não se despede, não se liga e não se pergunta. Sem cobranças, nem interrogações. A gente só vive o dia que a gente tem, e se tudo der certo, a gente se encontra no sábado. Sem que eu precise anotar na agenda ou mandar uma mensagem. Eu toco na campainha, você aperta o botão de abrir. E assim o resto da nossa vida acontece. Sou uma passageira que insiste em pegar o mesmo ônibus: você. E você, que prefere os trens, guarda o mesmo lugar na janela do terceiro vagão: então sou eu.

Algumas histórias não precisam de flores decorando as páginas ou a mesa da sala. A nossa história não tem história, só duas pessoas vivendo sem esperar nada em troca do dia seguinte. Sem status de relacionamento, sem álbum de fotografias, só um beijo de batom vermelho colado na parede, e na sua testa antes de sair. Há quem diga que nunca vai dar certo. E se não der, já deu até por tempo demais. O amor, ou o que quer que seja isso, já se pagou. Sem ruídos, sem feridas e à sós.

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