Pular para o conteúdo principal

Não achei um título pra você

Foto: Anna Oblivion


Acordei como um papel em branco perdido em milhões de gavetas. Não são gavetas, mas é como se fossem. Estou entre duas cobertas e um lençol de elástico, que se soltou da cama no meio da noite. Deve ser um sinal de que algo está onde não deveria. Um ponto fora da curva. Uma curva fora do ponto. Final, por sinal. E espero que não estejamos falando de nós. 

Sinto que falta algum pedaço de história ser escrito em mim. Em meio a tantas cicatrizes, não reconheço mais todas as marcas de ferida que sobraram aqui. E olha que são muitas!

Ontem à noite você não disse nada. Quase nunca você diz. É como se a vida estivesse gritando uma senha no balcão e a gente estivesse dormindo na sala de espera. Estar: um verbo do tamanho do mundo, que quase não reconheço mais. Presença às vezes significa mais ausência do que o contrário. Queria enrolar seus cabelos enquanto você dorme, mas eu sempre pego no sono primeiro. Será que algum dia vamos, enfim, nos esbarrar na esquina da nossa sala? Quem sabe tomar um café no sofá, manchar o tapete com algum vinho que sobrou...

Anotei num post-it pra não esquecer: verificar sua disponibilidade. (Se houver).

De vez em quando meu papel em branco encontra um rabisco por aí e, sabe, eu deveria estar morto para sentir outras coisas. Não sei que caminho pegamos para chegar onde estamos. Eu nem mesmo sei onde estamos. Será que isso é ruim? Vou te telefonar no meio da tarde pra marcarmos um ponto de encontro. Quero insistir que sobrou qualquer faísca aí em cima do seu criado mudo.

Será que você atende se eu ligar agora? Será que a gente já não passou batido? Quero abrir essa porta, mas tenho medo de descobrir que não sobrou nenhuma foto nossa colada na parede. Por favor, não exclua meu nome da sua agenda ainda. Você ainda é meu descanso de tela, meu contato de emergência e minha carona pro trabalho. 

E eu gostaria que fosse bem mais que isso. 

Comentários

Mais lidas

A crise do cometa

Tumblr: My name is Caroline

Ouvi dizer que um cometa de nome bem difícil vai passar pertinho da Terra amanhã. Pertinho é charme, são 21 milhões de quilômetros de distância da Terra, o menor valor de distância já registrado na história. Não sei em que isso muda minha vida, ou a sua (Sou de humanas). O fato é que coisas estão girando o tempo todo. Coisas estão ficando mais perto umas das outras, ou se afastando rapidamente. O lugar onde estamos hoje é consequência de coisas que aconteceram à nós. Segunda lei de Newton, amor: a força aplicada em um corpo tem total relação com a mudança na velocidade sofrida por ele. Tô parecendo até intelectual de exatas falando assim, mas foi um belo googão. ♥
Isso significa algo bem importante: estamos vivos. Piscamos os olhos, coçamos a mão e "me belisca pra eu ver que eu não tô sonhando". Ação e reação. A gente funciona. Não somos passivos. Somos uma massa grande de neurônios, pele, sistemas e coração. Ah, esse danado desse coração. Às vezes…

Ainda cabe você aqui dentro

Foto: Pinterest


Às vezes perco o tempo de vista imaginando como seria ganhar um sorriso seu. Confesso, voltar aqui é arrancar e sentir arder um pedaço de mim que ainda está em carne viva, mas que eu consigo disfarçar bem. Eu sempre achei que soubesse que saudade dói. E sabe... eu subestimei essa mulher. Que pena que não posso me desculpar, tomar um analgésico e fazer todo o resto desaparecer. 
Coisas aconteceram. Coisas deixaram aquele meu músculo preferido em frangalhos. Coisas não param de rebobinar na minha cabeça. Cenas do nosso amor interrompido. Não por vontade minha. Como poderia? Quem dera tudo se resumisse apenas a coisas, e não a pessoas. É mais fácil sofrer por bobagens.
Tempos atrás, muito antes de você, perdi meu moletom preferido. Um vermelho, quase duas vezes maior que eu, com um coração amarelo estampado bem no meio. Achei que fosse o fim da minha vida abrir a gaveta e não saber onde coloquei. Passei semanas remoendo isso dentro de casa. E como é fácil sofrer por beste…

Quando vai sobrar um pouquinho de você pra mim?

Hoje eu tive um daqueles típicos dias de cão. Se você nunca teve um, vou te explicar como funciona. Primeiramente você acorda, e pode deixar que o universo cuida do resto. A noite já foi mal dormida mesmo, então o que vem a seguir são só aperitivos. E vou te dizer mais uma coisa: dormir numa cama que você acha que nem é mais sua é a pior experiência que existe. Você acorda mais cansado do que quando foi dormir, é preciso pontuar. A companhia também conta muito. E o que aconteceu antes também. Desculpa o arrodeio todo, mas o dia de cão começa vinte e quatro horas antes, ou na noite anterior, bem antes de dormir.
Começa comigo, acordando cedo em pleno feriado para cobrir um plantão policial daqueles. (rebeliões. meninos tocando fogo em colchão, tentando matar o colega da cela vizinha, e eu imaginando como o mundo pode ser assim. daí tem explosão a banco, arrombamento de cofre, perseguição pelo meio do mato e tudo que um repórter de cidades tem direito). O plantão acaba, e quero aprovei…