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Secar no varal


Sentada no sofá da sala, olho para a barra da cortina que ainda tem as marcas do último inverno. Choveu tanto aquela noite, que a água invadiu as brechas do vidro da varanda. Você está no quarto, provavelmente com raiva de mim. E motivos você tem. Eu te dei.

Hoje foi uma daquelas noites em que eu perdi a cabeça. Mais uma vez. Antes fosse só a gritaria. Minha, claro, mas há pedaços de você nas minhas mãos. Te deixei em carne viva. Marcas da minha euforia entre teus ombros e a altura do peito esquerdo. Perdi mais que a cabeça. Perdi a razão, e acho que um pouquinho do seu amor também.

Desencosto do sofá e levanto os olhos procurando por você. Pela fresta da porta, te vejo deitado em silêncio na nossa cama. Você encara o teto e as paredes brancas do quarto, como se quisesse achar o restinho do nosso amor. Aquele que a gente tem quando te acordo com um assopro no pescoço no domingo de manhã. Que atravessa a rua de mãos dadas pra chegar mais rápido à padaria. Ou aquele que aproveita que estou com os cabelos assanhados, pra tirar uma foto. O restinho do que a gente tinha antes de apontarmos o dedo um para o outro. O restinho do amor que evitou que o desastre desta noite fosse maior.

Seus olhos estão cheios d'água. E os meus também. Só que além de um rosto amassado de chorar, temos um coração ferido por dentro. O seu mais que o meu. Foram tantos os absurdos que eu te disse em voz alta. Palavras engatilhadas prontas para alvejar bem o meio do seu peito.

Terminei a noite, sentada ao lado da cama, esperando que você me olhasse com seu rosto de perdão. Com o rosto que já me disse tantas outras vezes: "Eu sei. Você é louca mesmo. Mas eu te aceito de volta". E então você me chama pra deitar bem do seu lado, na pontinha da cama. De olhos fechados, você me abraça como se pedisse pra eu nunca mais fazer isso. Me abraça com tanta força, que sinto afinal o que significa uma despedida silenciosa.

- Está tudo bem. - você diz, deixando uma lágrima escorrer bem em mim. Mesmo depois de ouvir todas aquelas porcarias, você desenrola os meus cabelos e acaricia o meu rosto.

Eu sei que não estamos bem, mas fecho os olhos imaginando que amanhã acordaremos abraçados, como estamos agora. Imaginando que meu pedido de perdão seja mais alto e forte do que os pedaços de você que eu destruí esta noite. Estamos igual a cortina manchada da sala, marcados por uma noite com fortes pancadas de chuva. Estas, muito mais fáceis de evitar. Por hora, colocarei o que sobrou de nós pra secar no varal.

Sei que o momento não é adequado pra falar de amor. Mas se eu pudesse dizer a alguém o que ele significa, diria que amor é o jeito como você me abraçou antes de dormir.

Comentários

  1. Que texto lindo e triste ao mesmo tempo. Espero que o final desta história seja feliz. Você escreve bem, parabéns! Beijos
    http://www.ladystronger.com.br/

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    Respostas
    1. Bem dúbio não é? Hahahahaha. Obrigada pelo carinho, Flávia!

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  2. Porra, Re. Assim não dá pra te defender. Como se atreve a invadir meu peito sem nem bater na porta?

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