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Não deixe completar um minuto


Escrevo esta carta de punho e coração nu. Nos pés, uma meia de ursinho que eu nunca consegui desapegar, assim como essa saudade de você que sempre vem quando anoitece do outro lado da janela. Os pés estão quentes, mas o coração está descascado. E desde que você não me atende mais, uma xícara de café tem sido a minha única companhia. E desde que você se foi, eu nunca sei o que é o dia seguinte.

No meio desse frio, o único barulho da casa é o que sai do ventilador. Não me julgue. Eu precisava ouvir qualquer coisa, além do silêncio que invade toda a casa. Qualquer coisa além do eco que você deixou, quando bateu, em despedida, a porta da nossa sala.

Não sei porque escrevi, mas queria que você soubesse que eu menti quando disse que não me importava. Eu menti quando disse que a vida seria melhor sem você por perto. Se é, não quero nem saber. Ainda sinto saudade. Horas desmaiadas de saudade. Só o que tenho feito é pensar em como teria sido se eu tivesse descido as escadas, louca atrás de você. Como teria sido se eu não tivesse deixado você sair daquele jeito - não sem antes te dar um beijo de despedida. Foi o orgulho que me trancou aqui dentro, e deve ser ele que desligou seu telefone também.

Nunca mais eu abri as janelas. Você adorava ver o vento espalhando folhas sem cor por toda a casa. E desde que você não apareceu de volta, não há mais barulho, nem filme com pipocas espalhadas pelo velho tapete da sala. Os vizinhos acham que não há mais ninguém morando aqui. Mas tem você dilacerando dois centímetros do meu peito a cada hora que passa. Sobrei na esquina dessas paredes brancas, quando deixei que você fosse. 

Sabe o que acontece quando a gente deixa o orgulho ser maior que o amor? A gente se perde por um minuto de desleixo, e não por toda a briga. Em um minuto o outro atravessa a rua e vai. Em um minuto, a cabeça fica quente, e o coração vazio. Em um minuto, o outro muda de cidade ou de país. Foi um desses minutos covardes que te levou embora. Um minuto, que não teria se completado, se você tivesse esquecido as chaves do carro. Ou se eu tivesse te pedido pra ficar. Deixamos o outro ir, achando que a poeira precisa baixar - longe da gente. E então, quando a nuvem de terra desaparece, não há mais ninguém do outro lado da calçada. Só um aceno de adeus.

Faça a poeira baixar com um beijo. Não há quem não reaja a um beijo, no meio de uma confusão. Deixe que a cabeça do outro esfrie, mas com um abraço apertado por trás, ou um eu te amo no fundo dos olhos. Não deixe o outro ir, antes do seu orgulho. As coisas mais bonitas devem ser ditas no meio do caos, entre gritos e copos quebrados no chão. Não deixe esse minuto se completar pra ver se o outro volta. (Nem sempre ele volta).

Então não deixe completar o minuto. Não deixe que o tempo passe.
Não deixe virar saudade.

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