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Remetente



Todos os dias haviam sido entediantes, até aquela tarde.

Uma quinta-feira de outono sem a menor graça. Eu olhava para a janela, torcendo para que ela desabasse ali. Só o vento invadia a sala, passando por mim. Existe tédio maior do que um dia tranquilo? Pensava eu.

Minha função era receber a carta das pessoas, e enviá-las a seus possíveis destinos. Dentro daquele rabo de cavalo, sem um fio fora do lugar, meus pés mal alcançavam o chão, mas balançavam de preguiça.

Enrolando o cabelo nos dedos, eu pensava nos motivos que levavam as pessoas a escreverem cartas. Quem, passados os anos dois mil, ainda escreve cartas? Pior. Quem tem coragem de enviá-las? Argh, que coisa mais brega! Porque, a plenos iphones, alguém mandaria um envelope embrulhando frases perdidas, quando tem a chance de apertar um único botão?

Bateu três e quinze, quando aquela se tornou uma, entre as milhares de tardes, em que o ócio não bateu na minha saia lápis azul marinho. Mais de vinte e cinco cartas seladas, e uma sem remetente.

Endereçada a mim.

Uma carta pra mim.

Para Anna, era o que dizia. Mas Anna sou eu. Sou a única Anna aqui, eu acho. A não ser que seu Antônio também se chame Anna, com dois "N", sou a única com este nome no departamento.

Quem escreveria algo pra mim? Eu não conheço ninguém que escreve cartas. Na verdade, eu não conheço ninguém nessa cidade que me telefone, quanto mais escreva pra mim. O que alguém me diria afinal? O que, de tão cauteloso, não poderia ser dito por e-mail? Ou por bilhete? Eu aceitaria um bilhete colado no balcão. Um post-it cor de rosa, que seja, mas que viesse assinado - pelo menos.

Assinatura é o mínimo que o destinatário espera de uma carta. Eu, inclusive.

Não gosto de suspenses. E não gosto de cartas também, mas já que estou recebendo uma, esperava que viesse assinada. Será que é por isso que me mandaram isso aqui? A Anna, que odeia cartas, não sabe o que fazer com esta agora. 

Encaro o envelope branco querendo descobrir o que tem dentro, mas sem coragem de abrir. O que faço então? Olho para os lados tentando encontrar um possível destinatário. Vou até a calçada, procurando o vestígio de alguém que não está escrito no envelope. Pior que receber uma carta, é receber uma carta sem remetente. Não sei se rasgo, ou se deixo empoeirar.

Espera.

continua... aqui.

Comentários

  1. Aguardando ansiosamente a continuação <3

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  2. heheh que interessante. Também estou aguardando a continuação u.u
    beijos ♥ Seguindo aqui para acompanhar
    Filha do Rei | Deixe Seu blog de cara nova! encomende seu Layout

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  3. Ahhhhhhhhhh quero a continuação para saber o que tem nessa carta!

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  4. Aquela ansiedade de não saber o que você fara com a história toda, se me mata muié.

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  5. Eeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeita!
    Adora um suspense com esses contos, né?
    Danada de boa essa sua escrita!

    Beijão amore. Tava morrendo de saudade de passar por aqui.

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  6. Fiquei muito curiosa para saber o que está escrito nessa carta e quem a enviou!

    http://lenabattisti.blogspot.com.br/

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