Pular para o conteúdo principal

Décimo drinque


Parei de contar depois do décimo drinque. Queria que meu fígado não resistisse à tanto, porque com este segundo aqui, já são três horas de atraso. Mexo esse canudo numa contagem regressiva. Em vão. Já tirei meus sapatos há uma hora e, ou meu relógio está adiantado demais, ou até o garçom já percebeu que quem estou esperando não vem. "Quem" não. Você. 

De novo, você.

Quero atravessar a porta deste bar com dignidade, mas falta coragem para pedir a conta. Reservei essa mesa para dois. Pior, para nós dois. Não somos mais viáveis, e preciso admitir antes de pagar os drinques que não imaginei tomar desesperadamente hoje. É só quarta-feira, e esqueço que, para mim, existe o dia seguinte.

Um caso perdido isso aqui. Queria ter previsto que você não viria, como não veio das outras vezes que me fez colocar este mesmo perfume pra te ver. Tento acreditar que seu carro caiu num penhasco, de preferência com você dentro pra vingar todos os seus atrasos anteriores - aqueles que terminaram comigo chorando no banheiro deste mesmo bar. 

Mas seu telefone, que pensei que não daria sinal, assim como você, chama. E chama infinitas vezes, antes de uma voz invejável de mulher atender. Valho tão pouco que penso com toda a canalhice de cão, como queria que fosse eu aí com você.

Entre os centésimos de segundos que quero morrer, me divido entre um "puta que pariu" raivoso, e o silêncio com o qual prefiro ficar desta vez. A voz de sono desliga, e eu fico aqui, sem acreditar que caí na sua armadilha de novo. Caio porque quero, porque mereço e porque não presto. Mas você presta ainda menos que eu.

Decido beber o primeiro drinque da minha nova contagem, e choro de alagar a mesa. Choro sufocada com essa música que se repete igual aos canos que levei de você. Sinto raiva de tudo, enquanto amasso pedaços de papel que picotei com os dedos de ansiedade. Hoje fui eu que caí do penhasco, que desejei  pra você. Não sei mais como pedir esta conta, mas sei que amanhã a vida continua em horário comercial. E depois do expediente, quero voltar aqui só para constatar que ontem eu estava apressada demais.

Penso em apagar teu número da agenda. Mas mudo de ideia. Troco teu nome por DIGNIDADE. Assim, em itálico e caixa alta, pra nunca mais esquecer.

Comentários

  1. Mal começo meu dia e já me de paro com esses textos destruidores.
    Vai escrever bem lá em casa (aproveita e me ensina).

    ResponderExcluir
  2. Putz! Que texto é esse? Já começa um dia com um tapa na cara desses!
    Dignidade é o que sobra nessas histórias, afinal.

    Bom diiiiiiiia pra tu, amooore.

    ResponderExcluir
  3. Adorei esse texto, como sempre arrasando.
    Beijos

    http://beingasunshine.blogspot.com

    ResponderExcluir
  4. Mas gentee!''Sinto raiva de tudo, enquanto amasso pedaços de papel que picotei com os dedos de ansiedade."mias textos maravilhosos como estes, por favor.
    http://sombradaflor.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  5. PQP, desculpe pelo palavrão mas é que não achei outra forme de me expressar, que texto é esse Re? Eu fico sem vim aqui um tempo e quando apareço me deparo com isso! Tá que tá hein! DIGNIDADE preciso colocar alguns nomes assim no celular HAHAHAHAHA

    Beijos estava com saudades do seu cantinho

    ResponderExcluir
  6. S E N S A C I O N A L Rê.
    cada crônica tua que leio, sinto o ar fugir dos meus pulmões. SENSACIONAL. eu grifei o texto inteirinho. Dignidade foi ótimo. em outras épocas, eu deveria ter pensado nisso.

    Caio porque quero, porque mereço e porque não presto. Mas você presta ainda menos que eu.

    FLÓRIDA, darling. Muito.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Estou terminando um texto que fala das expectaivas que projetamos no outro.

      Ele relata que muitas vezes o outro de fato nunca existiu, foi apenas uma invenção ou delírio nosso impulsionado por uma faísca de carência.

      É preciso sepultar e enterrar as expectativas. O luto fará isso...então, vivenciem as dores e chore os desamores.

      Excluir

Postar um comentário

Mais lidas

A crise do cometa

Tumblr: My name is Caroline

Ouvi dizer que um cometa de nome bem difícil vai passar pertinho da Terra amanhã. Pertinho é charme, são 21 milhões de quilômetros de distância da Terra, o menor valor de distância já registrado na história. Não sei em que isso muda minha vida, ou a sua (Sou de humanas). O fato é que coisas estão girando o tempo todo. Coisas estão ficando mais perto umas das outras, ou se afastando rapidamente. O lugar onde estamos hoje é consequência de coisas que aconteceram à nós. Segunda lei de Newton, amor: a força aplicada em um corpo tem total relação com a mudança na velocidade sofrida por ele. Tô parecendo até intelectual de exatas falando assim, mas foi um belo googão. ♥
Isso significa algo bem importante: estamos vivos. Piscamos os olhos, coçamos a mão e "me belisca pra eu ver que eu não tô sonhando". Ação e reação. A gente funciona. Não somos passivos. Somos uma massa grande de neurônios, pele, sistemas e coração. Ah, esse danado desse coração. Às vezes…

Ainda cabe você aqui dentro

Foto: Pinterest


Às vezes perco o tempo de vista imaginando como seria ganhar um sorriso seu. Confesso, voltar aqui é arrancar e sentir arder um pedaço de mim que ainda está em carne viva, mas que eu consigo disfarçar bem. Eu sempre achei que soubesse que saudade dói. E sabe... eu subestimei essa mulher. Que pena que não posso me desculpar, tomar um analgésico e fazer todo o resto desaparecer. 
Coisas aconteceram. Coisas deixaram aquele meu músculo preferido em frangalhos. Coisas não param de rebobinar na minha cabeça. Cenas do nosso amor interrompido. Não por vontade minha. Como poderia? Quem dera tudo se resumisse apenas a coisas, e não a pessoas. É mais fácil sofrer por bobagens.
Tempos atrás, muito antes de você, perdi meu moletom preferido. Um vermelho, quase duas vezes maior que eu, com um coração amarelo estampado bem no meio. Achei que fosse o fim da minha vida abrir a gaveta e não saber onde coloquei. Passei semanas remoendo isso dentro de casa. E como é fácil sofrer por beste…

Quando vai sobrar um pouquinho de você pra mim?

Hoje eu tive um daqueles típicos dias de cão. Se você nunca teve um, vou te explicar como funciona. Primeiramente você acorda, e pode deixar que o universo cuida do resto. A noite já foi mal dormida mesmo, então o que vem a seguir são só aperitivos. E vou te dizer mais uma coisa: dormir numa cama que você acha que nem é mais sua é a pior experiência que existe. Você acorda mais cansado do que quando foi dormir, é preciso pontuar. A companhia também conta muito. E o que aconteceu antes também. Desculpa o arrodeio todo, mas o dia de cão começa vinte e quatro horas antes, ou na noite anterior, bem antes de dormir.
Começa comigo, acordando cedo em pleno feriado para cobrir um plantão policial daqueles. (rebeliões. meninos tocando fogo em colchão, tentando matar o colega da cela vizinha, e eu imaginando como o mundo pode ser assim. daí tem explosão a banco, arrombamento de cofre, perseguição pelo meio do mato e tudo que um repórter de cidades tem direito). O plantão acaba, e quero aprovei…