Pular para o conteúdo principal

Bips


Diante deste papel em branco, qualquer coisa onde encosto - dói. Para atravessar a primeira linha desta carta, ainda preciso vestir minhas meias. Sei que enquanto eu não quiser, você não me deixará ir. Então abro a geladeira pra pensar em todas as tuas propostas, e uma a uma me parecem indecentes para o nosso quadro atual. Algo indefinido, que ainda não sei em que pé anda. 

Se é que anda.

Fazem três ou quatro sábados que você adia o que estou fazendo agora. Fecho a porta dos armários, tentando trazer tuas roupas de volta, mas já não tem mais nada teu aqui. Eram, solitárias, uma e meia da madrugada quando notei que você se foi. Achei este papel de bilhete que você deixou debaixo do abajur aceso. Devo preencher sobre o que vem a seguir? Então espero que não seja você. Chega de piadas, rapaz.

Passos as mãos pelo rosto, tentando achar onde estamos afinal. Sem endereços, nem indicações, tento encontrar um indício teu. Olho teu número na agenda e releio todas as 27 mensagens que você deixou pra mim. Queria estar de novo naqueles convites que você me fez. 

Foram quantas semanas que duramos nós dois? Qual foi a razão de você ter sido breve aqui? Em que silêncio deixei você bater a porta e jogar as chaves deste 501 fora? 

Você trancou os ferrolhos comigo dentro, e deixou no rastro do tapete, as garrafas que esvaziou. Agora fico eu, e este papel infeliz, tentando encontrar nossa resposta.

Plim. O telefone apita.

Você merece coisa melhor. É o que leio. 
Foda-se! É o que digo soletrando em lá maior para o corredor inteiro ouvir. 

Plim. O telefone apita mais uma vez.

Eu não sou o cara certo.

Por ordem, pego nosso porta retrato e atiro na parede. Quem sabe no próximo bip, seja este telefone no chão. Ou espero você mandar outras cinco mensagens, até meu coração parar de vez? Esfrego desespero no rosto. Meu corpo sua, e tento encontrar as chaves perdidas na bolsa.

Plim. É o telefone. 

E decido que você não apitará de novo. Solto a carcaça daqui do quinto andar, como se tivesse jogando você, a velocidades que não sei definir bem. Enfim temos nosso final, penso quebrando novos cacos de vidro pelo meio da sala.

Daqui de cima ouço um último assovio teu.

Plim.

Mas eu não me importo. Dizia a mensagem.

Corro as escadas tentando achar você na rua.

Plim.

Plim.

Plim.

Perdi você no meio fio. Saímos das vírgulas e não deu tempo de ler.

Comentários

  1. Você que escreveu? Adooorei o texto, está incrível, adoro ler texto assim, onde eu sinto o que o personagem ta passando, onde consigo me imaginar no lugar sabe?

    Beijos, Love is Colorful & Sorteio Lentes para Celular

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. A pergunta caiu pra mim como um elogio ♥ Sou eu sim, Barbs. E que lindo que você se envolveu! Ai que delícia, de ler!

      <3

      Excluir
  2. Mulher, tu tem um poder de matar a pessoa nos finais dos textos. Quequéisso minha gente?
    Arrasa demais! Já não sou nem mais fãzinha, é FÃzona mesmo!

    Beijo em tu :*

    ResponderExcluir
  3. Vou ali catar meu celular, ops essa não sou eu, não era sobre mim, jura?
    Porque meu coração acelerou conforme o texto.
    Tu é demais mesmo viu.

    ResponderExcluir
  4. Estou passando por uma situação parecida, estou me envolvendo com alguém e tenho a sensação de que vai ser algo breve, sinto isso nele, sabe? E acho que no fim, ele vai fazer o mesmo, dizer que eu mereço alguém melhor e tal. É complicado querer que algo dure quando a outra pessoa não quer o mesmo...

    http://lenabattisti.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Mais lidas

A crise do cometa

Tumblr: My name is Caroline

Ouvi dizer que um cometa de nome bem difícil vai passar pertinho da Terra amanhã. Pertinho é charme, são 21 milhões de quilômetros de distância da Terra, o menor valor de distância já registrado na história. Não sei em que isso muda minha vida, ou a sua (Sou de humanas). O fato é que coisas estão girando o tempo todo. Coisas estão ficando mais perto umas das outras, ou se afastando rapidamente. O lugar onde estamos hoje é consequência de coisas que aconteceram à nós. Segunda lei de Newton, amor: a força aplicada em um corpo tem total relação com a mudança na velocidade sofrida por ele. Tô parecendo até intelectual de exatas falando assim, mas foi um belo googão. ♥
Isso significa algo bem importante: estamos vivos. Piscamos os olhos, coçamos a mão e "me belisca pra eu ver que eu não tô sonhando". Ação e reação. A gente funciona. Não somos passivos. Somos uma massa grande de neurônios, pele, sistemas e coração. Ah, esse danado desse coração. Às vezes…

Ainda cabe você aqui dentro

Foto: Pinterest


Às vezes perco o tempo de vista imaginando como seria ganhar um sorriso seu. Confesso, voltar aqui é arrancar e sentir arder um pedaço de mim que ainda está em carne viva, mas que eu consigo disfarçar bem. Eu sempre achei que soubesse que saudade dói. E sabe... eu subestimei essa mulher. Que pena que não posso me desculpar, tomar um analgésico e fazer todo o resto desaparecer. 
Coisas aconteceram. Coisas deixaram aquele meu músculo preferido em frangalhos. Coisas não param de rebobinar na minha cabeça. Cenas do nosso amor interrompido. Não por vontade minha. Como poderia? Quem dera tudo se resumisse apenas a coisas, e não a pessoas. É mais fácil sofrer por bobagens.
Tempos atrás, muito antes de você, perdi meu moletom preferido. Um vermelho, quase duas vezes maior que eu, com um coração amarelo estampado bem no meio. Achei que fosse o fim da minha vida abrir a gaveta e não saber onde coloquei. Passei semanas remoendo isso dentro de casa. E como é fácil sofrer por beste…

Quando vai sobrar um pouquinho de você pra mim?

Hoje eu tive um daqueles típicos dias de cão. Se você nunca teve um, vou te explicar como funciona. Primeiramente você acorda, e pode deixar que o universo cuida do resto. A noite já foi mal dormida mesmo, então o que vem a seguir são só aperitivos. E vou te dizer mais uma coisa: dormir numa cama que você acha que nem é mais sua é a pior experiência que existe. Você acorda mais cansado do que quando foi dormir, é preciso pontuar. A companhia também conta muito. E o que aconteceu antes também. Desculpa o arrodeio todo, mas o dia de cão começa vinte e quatro horas antes, ou na noite anterior, bem antes de dormir.
Começa comigo, acordando cedo em pleno feriado para cobrir um plantão policial daqueles. (rebeliões. meninos tocando fogo em colchão, tentando matar o colega da cela vizinha, e eu imaginando como o mundo pode ser assim. daí tem explosão a banco, arrombamento de cofre, perseguição pelo meio do mato e tudo que um repórter de cidades tem direito). O plantão acaba, e quero aprovei…