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Desembarque no supermercado #2

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Uma chuva fina caiu bem no meio daquele abraço e o céu escuro da noite desabou em lágrimas. Sabe quando dois minutos duram uma imensidão? Foi nesse meio tempo em que os pingos que caíam no estacionamento ficaram mais fortes. Ela poderia morar pra sempre dentro daquele peito largo que ele tinha. Meu Deus! Esse homem não parece em nada com aquele cara que conheci.

A chuva escorria quente na pele, e para um dos dois aquilo parecia muito mais intenso do que se previa. Era pra ser só um reencontro divertido, mas ele encostou a boca nos ombros dela e as lágrimas começaram a descer.

- O que eu perdi quando peguei aquele avião? - perguntou ele. - Sonhei todas as noites em te ver - continuou, com a voz travando na garganta.

Ela saiu dos braços fortes que ele tinha, tentando acreditar nas lágrimas que caíam ali. Quando ele foi, deixou pedaços de saudade espalhados por cada dia que passou. E não foi só saudade. Foi tudo que poderia ter sido, se ele tivesse ficado. O cheiro que ele usava nunca saiu das escadas daquele apartamento. Os planos sacanas que eles fizeram venceram o prazo de validade. E agora o passado estava ali, prestando contas de tudo que levou de graça.

- Tenho que ir. As luzes ficaram acesas em casa - disse ela, fria e longe.
- Posso desligá-las com você, se quiser - tentou.
- Sem jogos aqui! Não transforme pele em coração. Já tenho alguém me esperando - respondeu, rapidamente, sem olhar no olhos dele, que brilhavam em lágrimas.

Puta mentira, cara! Não havia ninguém em casa. Nada, além de copos espalhados pelo tapete. Uma bagunça generalizada, igual ao que ele deixou quando voou para longe sem se despedir. É compreensível fechar o coração assim, para balanço. A emoção mais forte desta noite ficará apenas no beijo que ela acaba de dar. Um maldito beijo que ele vai levar pra casa assombrando o peito.

- Pensei que iríamos dividir meu vinho esta noite. Não voltei pra me divertir. Não é só isso - tentou mais uma vez, com uma voz que lutava pra  não sair.
- Hoje seu vinho continuará sendo seu. Você chegou atrasado, desculpe! Não posso dar pra você meu coração inteiro de novo - disse ela, fechando o porta-malas.
- Não vá embora, por favor! - pediu de olhos fechados.

Ela deu as costas e caminhou até o banco do motorista, com as compras guardadas lá atrás.

- Por favor, me leve com você - continuou, de olhos fechados com uma garrafa de vinho na mão.
- Não coloque o coração aqui desta vez. Você não tem mais este espaço - respondeu categórica.

Ela desceu os vidros do carro antes de cruzar a chancela do estacionamento, olhou pra ele e a noite terminou com o som da buzina que ela apertou. Um adeus de verdade, afinal! Sem bilhetes escritos à mão, sem covardia. Só alguém com peito de verdade vai embora assim, querendo ficar. Só alguém com um coração que apanhou até despedaçar entende que nem sempre reviver é respirar.

- Não vá embora, por favor - repetia a cada quilômetro que corria pelo parque, antes de voltar pra casa com um vinho na mão, suando de frio.

Queda de energia no prédio, meu caro. Esta noite você vai dormir no escuro. Pense positivo! Você ganhou um beijo de despedida, pelo menos. Para lidar com um coração reconstruído, meu amigo, tem que merecer mais que um reencontro num supermercado, e há anos atrás era ela quem voltava perdida pra casa. Essa noite vai passar, cara. Assim como você passou, e esse é o fim da história. Pra ela!

*Esta é a parte 2 de Desembarque no Supermercado, que você leu aqui.
13/31

Comentários

  1. Que história linda! Vc escreve muitoooo bem, parabéns! Fiquei encantada!!

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  2. Ai Rê, eu estava crente que eles iriam terminar o texto bebendo um vinho juntos.
    Mas é assim né. As pessoas não podem simplesmente voltar achando que nada mudou, que não ficaram marcas e cicatrizes.

    Vai continuar? Diz que sim?!

    Beijoca!

    (> amei seu comentário no post de ontem, coisa mais linda )

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    Respostas
    1. Porque nem sempre quando estamos sozinhos, estamos disponíveis né Aninha? (Vai continuar não. Só o sofrimento dele hahahaha)

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  3. Quando acabei de ler a 1° parte, ontem, estava sozinho em casa e gritei um alto: NÃOOOOO! Esse "não" foi pela sacanagem de você guardar o texto pra outro dia :)

    Mas no fundo, gostei dessa expectativa criada, pois fiquei tentando montar a sequencia em minha cabeça.

    Falar que eu adorei o texto e redundância, pois pelos comentários todo mundo aqui ficou fascinado.

    Achei incrível essa tua narrativa, Renata. A riqueza de detalhes, mas sem exagerar, fez com que a cena toda da 1° parte, na fila do supermercado, fosse desenhada POR COMPLETO em minha retina...eu vi tudo - os dois na fila, as compras sendo passadas no caixa e o olhar de um para o outro.

    Parabéns, de verdade

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    Respostas
    1. Que comentário mais lindo, Cley <3 (Eu, a íntima da pessoa hahaha) Tô sem palavras aqui ♥♥♥ Obrigada por esse carinho. Ler isso é melhor que qualquer coisa. <3 Boa quintammmm :)))

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    2. Vc é seu belo texto merecem toda e qualquer palavra de carinho. Continue escrevendo ☺

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  4. Gosteeeeeeeeeei do finaal!! Era bem isso que eu esperava, hahhaa!
    Não queria que ela voltasse de jeito nenhum.
    xx

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    Respostas
    1. Nos identificamos, então, Karolsss. Hahaha ♥

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  5. " Quando ele foi, deixou pedaços de saudade espalhados por cada dia que passou. E não foi só saudade. Foi tudo que poderia ter sido, se ele tivesse ficado. "

    Ai a saudades =/

    Beijos Rê

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    Respostas
    1. Ah coração traiçoeeeeeeeeeeeeiro né Barbs?

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  6. Arrasouuuuu!! Virei sua fã! Adorei de paixão!! Muito bem pregado para ele! haha Eu leria o livro da história deles hahaha <3

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