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Carta aos seus passeios de bicicleta


Ouvi essa história um dia desses, e resolvi escrever uma carta como se fosse ela. Não sei o nome do destinatário, e ele continuará sendo um estranho por aqui!

Era um homem incrível. Não passava um dia em que não fosse charmoso passeando pela casa. Mesmo depois de nove anos com aquele anel no dedo, você continuava chamando a minha atenção. Minha vida nunca foi tão feliz, mesmo com o cansaço dos últimos tempos. Eu sorria com a nossa casa dos sonhos, viagens incríveis a cada nova estação, e mais recentemente dois filhos - feitos com aquele amor que a gente se prometeu.

Você costumava andar de bicicleta todas as tardes. Nunca tive o que reclamar. Sempre voltava com doces e livros pra mim. Nunca empatei com os jogos de futebol, ou com o barzinho aos domingos. Até seus amigos sabiam: Era coisa de você ser assim: tão corpo e alma.

Mas esta sexta-feira vai durar uma eternidade. Aliás, ainda está durando. Estou deitada, lendo um livro, enquanto os meninos dormem e você termina o banho. Nunca mais conversamos sobre nada além dos garotos. Nunca mais ficamos algum tempo rindo das nossas bobagens casuais. Você enxuga o cabelo sentado na cama, e eu pauso minha leitura pra pensar no que você tem feito nos últimos tempos.

- Você está me traindo? - pergunto sem tirar o olho do livro, só por força da constatação. Tem dias que dá um tique na gente, e as perguntas saem atropeladas, assim, do nada. Eu nunca pensei nessas coisas, até 10 minutos atrás.

Você olhou pra mim com um olhar que eu nunca vi antes. E entre um par de silêncios, meu coração gelou. Essa sua voz que não sai daí começa a me dar medo. Fale de uma vez por todas, penso, levantando uma sobrancelha por vez.

- Estou - respondeu sem titubear - E tiro minhas coisas de casa amanhã mesmo! - Ouvir a sua voz declarando o nosso fim, me devastou por dentro, e no domingo.. você não estava mais lá.

Fiquei o resto da noite procurando os cacos do meu coração pelos móveis da nossa casa. Sabe qual é o tamanho de tudo isso? Nem eu.

Fico pensando, como alguém que dorme ao nosso lado, no dia seguinte passa a ser só mais um estranho na rua. Como alguém que me fez mil promessas pode estar de malas prontas para viver a vida com alguém que eu sequer sabia existir? Não deveria ter um sensor de alerta, para quando o outro estivesse se distanciando? O que foi que eu perdi, enquanto achava que cuidava das nossas coisas? O que os passeios de bicicleta fizeram com você? Afinal... você sabe mesmo pedalar?

Onde foi que parei de ver os teus sinais? Mal posso acreditar que aquela bicicleta de neons não era a única que passava as tardes com você. Difícil de acreditar pra mim. Hoje fazem três meses que você esvaziou o seu lado do armário, e confesso que ainda não saí daquela sexta-feira. O tempo parou naquele instante. Nunca imaginei que ouvir o "sim" outra vez fosse machucar tanto um pedaço do meu peito.

Eu soube que hoje você se casa. Não faço a mínima ideia da vida que você está construindo agora. Parece até que estou de luto. É como se um caminhão tivesse passado por cima de você, só que quem ficou ferida fui eu. Custo a aceitar que você tenha sido assim, tão de mentira, tão irreal, só um enfeite em cima do meu criado mudo.

Nosso menino mais velho chora todos os dias sem saber onde você está, e eu nunca sei o que responder. Nem pra mim. Ficamos os dois sozinhos no tapete da sala, enquanto você não volta dessa aventura. Tem noites que rebobino as fitas para tentar encontrar o local em que deixei cair você, mas neste momento em que alguém ouve suas juras de amor, sei que esta carta que escrevo é em vão. Sua bicicleta e você agora têm uma nova casa... E eu não.

* A história não é ficção, mas a carta é.

06/31


Comentários

  1. Lindo texto, ops, linda carta *-*
    Já amo sua escrita Renata ♥
    beijoss
    Ganurb

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    1. Ow Bruna, que linda ♥♥♥ Obrigada pela companhia!

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  2. Fui ficando o coração apertadinho de dor em cada linha. Comecei leve e apaixonada, mas foi doendo a medida que lia.

    Onde foi que parei de ver os teus sinais? - tenho medo de não ver sinais. tenho muito, muito, muito medo de não ver sinais.

    E gente, como assim essa história não é ficção??! :'(

    Espero que não seja nada que te faça doer demais.

    Um beijo grande, um abraço beeeeeeeeeeeeeeeem apertado e um colo, se assim você precisar

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    1. Ô Fê. ♥ Felizmente a história não aconteceu comigo, mas até pra contar dói né? Conversei tanto com meu marido sobre isso. A gente ficou refletindo sobre o ponto exato em que uma pessoa se perde da outra, assim como aconteceu com esse casal. Não sei bem como acontece, mas sempre que escuto uma história, tento entrar no mundo da pessoa pra dimensionar as coisas.

      Obrigada pela presença sempre linda aqui, Fê ♥

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  3. Não aconteceu com vc que escrevia e nem comigo que lia...doeu sim...me coloquei como personagem,mesmo protagonista de uma história bem diferente...mas na condição de apaixonada não pude deixar de imaginar quão difícil seria vivenciar uma ação similar e também responder para meus dois filhos a lição de uma ausência repentina e dolorosa.Mas no final de uma relação sempre é assim...acaba apenas para uma das partes...a outra nem percebe esses desprendimento...Eu com certeza também pararia meu tempo naquela sexta-feira..

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    1. Ô Nel. Verdade! Quando ouvi essa história fiquei tanto tempo me colocando no lugar. Minha realidade é totalmente diferente né? Eu não tenho nem os dois filhos. Mas não dá pra não sentir isso. É um acidente brusco de mais. Eu com certeza também pararia no tempo :/

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  4. Simplesmente acontece. Vivi algo parecido há dois anos atrás...E escrevi uma carta também http://ladomilla.blogspot.com.br/2014/08/carta-01-e-moreno.html ano passado .

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  5. Simplesmente acontece. Vivi algo parecido há dois anos atrás...E escrevi uma carta também http://ladomilla.blogspot.com.br/2014/08/carta-01-e-moreno.html ano passado .

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  6. Não sou dessas de ficar comentando em blogs mais confesso q quando comecei a ler tentei parar mais não conseguir... o que tem nessa carta pode acontecer com qualquer um!!! Parabéns pela escrita.... valeu sim a pena suas 3 semanas tentando escrever essa carta q vai servir de lição p muita gente.... Bjs

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    1. Com qualquer um mesmo, Deisy :(( Obrigada pela leitura, e pelo carinho!

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  7. "Fico pensando, como alguém que dorme ao nosso lado, no dia seguinte passa a ser só mais um estranho na rua"

    O pior das aspas é ficar tentando fazer o exercício do "por que". É estranho que uma relação acabe desse jeito. Assim como todo mundo aqui, também fui lendo a narrativa e me colocando no lugar, me envolvendo. Senti o baque!

    Em relação a tua escrita: magnífico, Renata!
    Cada vez melhor. Os detalhes. As metáforas. O tempo.

    Achei singelo o uso da bicicleta como forma de conduzir o texto.

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    1. Ai que coisa linda. ♥ Sempre fico sem palavras para teus comentários aqui! (melosa)

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