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Uma nova ligação



A luz do quarto de Alice vai ficar acesa hoje. A noite passada foi longa no escuro. A única coisa que ela queria da vida era uma resposta. Porque histórias acabam sem um ponto final? Sem um abraço de despedida, sem um beijo no saguão? Ela estava feliz da vida, sorrindo apaixonada e, de repente, atendeu uma ligação. Do outro lado, um adeus. Porque isso acontece? Não era só ir embora, assim, sem um aceno. Ele fez muitas promessas, mas dos corações alheios nada se pode questionar. É o preço que se paga por ter um músculo debaixo do peito.

A gente despreza o olhar, foge dos encontros, evita os beijos, e sabe por que razão? Bater a cara na porta. 

De novo.

Sabe quantas noites em claro ela passou esperando outra ligação chegar? Muitas, desde aquela. Ele sempre foi a causa da insônia de Alice. Mas claro, sonhar acordada cheirando a gola do vestido - perfumado com o cheiro que ele deixou - é melhor que molhar os lençóis com lágrimas quentes.

O príncipe se desencantou. Ela não.

É triste viver uma história sozinha. Mais triste ainda é aceitar viver assim. Sem laços, com migalhas, implorando sobras de um amor que já foi seu. Integralmente. Não adianta pedir justificativas a quem não tem nada pra dizer. Neste caso, o silêncio é o pior dos ecos. É um volume em linha reta, com uma navalha na ponta.

Sabe quando o coração para de bater? É exatamente assim. Alice atravessou madrugadas se enfrentando no espelho. Faltou coragem para deixar aquela parede lisa de novo. Até retirar todas as fotos dá trabalho pra quem não sabe como enterrar um amor no fundo da caixa. O romance foi pequeno demais, mas o estrago que causou fica nas reticências. E ela sabe muito bem as razões. Que cretino que ele foi!

Só algo vivido com tanta intensidade deixa marcas eternas no peito. E Alice sempre foi intensa demais, entregue demais, louca demais. Quem nunca foi Alice por um dia e passou dos limites por uma paixão? Às vezes o final acaba com um anel no dedo e um sorriso no rosto. Outras, só acaba. Sem satisfação.

O medo impede a gente de fazer muita coisa, entre elas quebrar a cara. Depois de aplicar uma dose de amor próprio direto na veia, ouvir a mesma música por dias seguidos, o que acontece?

Uma nova ligação...

Comentários

  1. Respostas
    1. Obrigada anonysss :} Volte sempre que quiser!

      Beijo

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  2. "O medo impede a gente de fazer muita coisa, entre elas quebrar a cara"

    Usando essas aspas como referência: já passei por isso duas vezes, me arrependi amargamente do medo e custei a esquecer tudo.

    Realmente, todos já fomos "Alices"...intensos de amor e outrora amargando uma solidão.


    PS: Descobri este teu Blog numa página do Face cujo um amigo me indicou. Parabéns pela tua escrita, logo lerei mais coisas por aqui

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ai Cleydson, só muita força de vontade pra fazer a gente sair do poço né? Todos já fomos Alices mesmo. #truestory Que lindo que você conhece o blog agora! Volte sempre que quiser.

      Beijo grande e bom fim de semana :))

      Excluir

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