Pular para o conteúdo principal

Minha crônica preferida

Pinterest
Ontem à noite estava tentando redigir um post aqui pro blog quando lembrei de uma situação atípica que passei esses dias. Encontrei uma amiga conhecida em uma festa, e o cumprimento foi: "diz!" - com um dedinho gelado no meu ombro. Não deu tempo responder como eu deveria. Deu as costas e saiu. Geralmente os reencontros eram mais acalorados. Então lembrei de uma das minhas crônicas preferidas, da incrível Martha Medeiros no livro Montanha-Russa. Porque amo essa crônica, e porque sensibilidade tá em falta nos estoques. Lá vai.

Estava lendo o novo livro do Paulo Hecker Filho, Fidelidades, onde, numa de suas prosas poéticas, ele conta que, antigamente, deixava bilhetes, livros e quindins na portaria do prédio do Mario Quintana: "Para estar ao lado sem pesar com a presença". Há outras histórias e poemas interessantes no livro, mas me detive nesta frase , porque não pesar os outros com nossa presença é um raro estalo de sensibilidade. 

Para a maioria das pessoas, isso que chamo de um raro estalo de sensibilidade tem outro nome: frescura. Afinal, todo mundo gosta de carinho, todo mundo quer ser visitado, ninguém pesa com sua presença num mundo já tão individualista e solitário. Ah, pesa... Até mesmo uma relação íntima exige certos cuidados. Eu bato na porta antes de entrar no quarto das minhas filhas e na de meu próprio quarto, se sei que está ocupado. Eu pergunto para minha mãe se ela está livre antes de prosseguir com uma conversa por telefone. Eu não faço visitas inesperadas a ninguém, a não ser em caso de urgência, mas até minhas urgências tive a sorte de que fossem delicadas. Pessoas não ficam sentadas em seus sofás aguardando a chegada do Messias, o que dirá a do vizinho. Pessoas estão jantando. Pessoas estão preocupadas. Pessoas estão com o seu blusão preferido, aquele meio sujo e rasgado, que elas só usam quando ninguém está vendo. Pessoas estão chorando. Pessoas estão assistindo a seu programa de tevê favorito. Pessoas estão se amando. Avise que está a caminho. Frescura, jura? Então tá, frescura, que seja. 

Adoro e-mails justamente porque são sempre bem-vindos, e posso retribuí-los sabendo que nada interromperei do lado de lá. Sem falar que encurtam o caminho para a intimidade. Dizemos pelo computador coisas que face a face seriam mais trabalhosas. Por não ser ao vivo, perde o caráter afetivo? Nem se discute que o encontro é sagrado. Mas é possível estar ao lado de quem a gente gosta por outros meios. Quando leio um livro indicado por uma amiga, fico mais próxima dela. Quando mando flores, vou junto com o cartão. Já visitei um pequeno lugarejo só para sentir o impacto que uma pessoa querida havia sentido, anos antes. Também é estar junto. Sendo assim, bilhetes, e-mails, livros e quindins na portaria não é distância: é só um outro tipo de abraço.

Sinta-se abraçado”.

Qual a crônica preferida de vocês? Contem pra mim!

Que a quarta-feira seja doce!

Comentários

  1. Adorei essa crônica! Eu gosto de algumas da Paula Pimenta, daquelas bem adolescentes mas que falam o que a gente passa/já passou, sabe? O livro Apaixonada por Palavras dela é cheio de crônicas sensacionais! Gosto também das crônicas da extinta (meu coração chora) Capricho. Comprei até um livro com elas, acho que vou ler agora.
    Beijinhos, estou adorando o blog.
    Me pergunto por qual motivo vc ainda não tinha feito um (e se dedicado a ele) antes?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ahhhhhh Geo... Eu também me apaixonei por crônicas através da CH. ♥ Na época, quem escrevia era Lili Prata (maravilhosa). Eu sempre começava a ler a revista pela última página. Tempo mara!

      Obrigada Geo. Você é uma grande inspiração pra mim! (Se eu nunca disse, saiba, pois é verdade: Sua história de vida, as coisas que tu passa e a forma como tu trata foi e é um exemplo. Vendo você tive coragem pra colocar o bloguito no ar). ♥♥♥

      Excluir
  2. Oi Rê, essa crônica é muito boa mesmo. Ao você citar esse fato que ocorreu contigo, lembrei também de uma crônica do Luís Fernando Veríssimo em Comédias da Vida Privada, bem engraçada kkkk mas que relata muito o que acontece conosco e diversas vezes não damos tanta importância assim, é meio grandinho, mas para uma boa leitora como você (já percebi aí em cima kkkk) não será muito. Deixarei o link para que você o leia: http://contobrasileiro.com.br/?p=829
    Obs: Esta crônica está nos livros: As mentiras que os homens contam, Comédias da vida privada, O suicida e O computador.
    Não é o meu favorito, mas cá entre nós é engraçado kkkkkkkk, beijos Rê, espero que tenhas gostado. Seu blog é uma fofura!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Li enquanto espero minha vez no dentista. KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK Veríssimo é mesmo hilário, como dizem. Não sei por qual razão ainda não comprei um livro dele. (acho que é o preconceito com as capas) Adorei essa crônica. Adorei a indicação. Tu é danada hein? Muito obrigada pelo carinho, e volte sempre que quiser. Beijoo

      Excluir

Postar um comentário

Mais lidas

A crise do cometa

Tumblr: My name is Caroline

Ouvi dizer que um cometa de nome bem difícil vai passar pertinho da Terra amanhã. Pertinho é charme, são 21 milhões de quilômetros de distância da Terra, o menor valor de distância já registrado na história. Não sei em que isso muda minha vida, ou a sua (Sou de humanas). O fato é que coisas estão girando o tempo todo. Coisas estão ficando mais perto umas das outras, ou se afastando rapidamente. O lugar onde estamos hoje é consequência de coisas que aconteceram à nós. Segunda lei de Newton, amor: a força aplicada em um corpo tem total relação com a mudança na velocidade sofrida por ele. Tô parecendo até intelectual de exatas falando assim, mas foi um belo googão. ♥
Isso significa algo bem importante: estamos vivos. Piscamos os olhos, coçamos a mão e "me belisca pra eu ver que eu não tô sonhando". Ação e reação. A gente funciona. Não somos passivos. Somos uma massa grande de neurônios, pele, sistemas e coração. Ah, esse danado desse coração. Às vezes…

Ainda cabe você aqui dentro

Foto: Pinterest


Às vezes perco o tempo de vista imaginando como seria ganhar um sorriso seu. Confesso, voltar aqui é arrancar e sentir arder um pedaço de mim que ainda está em carne viva, mas que eu consigo disfarçar bem. Eu sempre achei que soubesse que saudade dói. E sabe... eu subestimei essa mulher. Que pena que não posso me desculpar, tomar um analgésico e fazer todo o resto desaparecer. 
Coisas aconteceram. Coisas deixaram aquele meu músculo preferido em frangalhos. Coisas não param de rebobinar na minha cabeça. Cenas do nosso amor interrompido. Não por vontade minha. Como poderia? Quem dera tudo se resumisse apenas a coisas, e não a pessoas. É mais fácil sofrer por bobagens.
Tempos atrás, muito antes de você, perdi meu moletom preferido. Um vermelho, quase duas vezes maior que eu, com um coração amarelo estampado bem no meio. Achei que fosse o fim da minha vida abrir a gaveta e não saber onde coloquei. Passei semanas remoendo isso dentro de casa. E como é fácil sofrer por beste…

Quando vai sobrar um pouquinho de você pra mim?

Hoje eu tive um daqueles típicos dias de cão. Se você nunca teve um, vou te explicar como funciona. Primeiramente você acorda, e pode deixar que o universo cuida do resto. A noite já foi mal dormida mesmo, então o que vem a seguir são só aperitivos. E vou te dizer mais uma coisa: dormir numa cama que você acha que nem é mais sua é a pior experiência que existe. Você acorda mais cansado do que quando foi dormir, é preciso pontuar. A companhia também conta muito. E o que aconteceu antes também. Desculpa o arrodeio todo, mas o dia de cão começa vinte e quatro horas antes, ou na noite anterior, bem antes de dormir.
Começa comigo, acordando cedo em pleno feriado para cobrir um plantão policial daqueles. (rebeliões. meninos tocando fogo em colchão, tentando matar o colega da cela vizinha, e eu imaginando como o mundo pode ser assim. daí tem explosão a banco, arrombamento de cofre, perseguição pelo meio do mato e tudo que um repórter de cidades tem direito). O plantão acaba, e quero aprovei…