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Quando vai sobrar um pouquinho de você pra mim?

Foto: Tumblr Generation


Hoje eu tive um daqueles típicos dias de cão. Se você nunca teve um, vou te explicar como funciona. Primeiramente você acorda, e pode deixar que o universo cuida do resto. A noite já foi mal dormida mesmo, então o que vem a seguir são só aperitivos. E vou te dizer mais uma coisa: dormir numa cama que você acha que nem é mais sua é a pior experiência que existe. Você acorda mais cansado do que quando foi dormir, é preciso pontuar. A companhia também conta muito. E o que aconteceu antes também. Desculpa o arrodeio todo, mas o dia de cão começa vinte e quatro horas antes, ou na noite anterior, bem antes de dormir.

Começa comigo, acordando cedo em pleno feriado para cobrir um plantão policial daqueles. (rebeliões. meninos tocando fogo em colchão, tentando matar o colega da cela vizinha, e eu imaginando como o mundo pode ser assim. daí tem explosão a banco, arrombamento de cofre, perseguição pelo meio do mato e tudo que um repórter de cidades tem direito). O plantão acaba, e quero aproveitar o tempo livre com alguém. Quem? Você está ocupado demais na quinta ou sexta festa com a mesma turma com quem sai há quase um mês. É só um almoço. Vai ficar tudo bem. Você deve chegar cedo e a gente vai sair junto pra comer qualquer coisa bem gordurosa e com chocolate (ou peixe cru, de preferência). Depois a gente volta pra casa, e vai assistir a mais um episódio daquela série sobre um professor de química traficante de metanfetamina. (Essa mesmo).

Mas dá cinco da tarde e você não chega. Esse almoço está mesmo demorando. Então dá seis. Deve estar divertido esse lugar onde você está e eu não sei onde fica, com essas pessoas que eu não sei quem são. Então dá sete, oito, nove. E eu nem acredito que vi você chegar às 21h46. Como se nada tivesse acontecido. Como se o almoço tivesse virado mais uma dessas festas em que você precisa estar sem mim. Todos durante noites, domingos e feriados. Não é estranho isso?

Você está mesmo feliz. E é uma felicidade que me faz desistir de escrever meus contos de mentira, pra falar sobre você aqui. Sobre o quanto você está feliz sem mim. Sobre o quanto não sobra uma hora disponível em você. Sobre o quanto eu ligo, te espero, e me importo em como você está vivendo uma vida que nunca me inclui. Há mais de um mês. Há algum tempo, segundo você, que nem sabe precisar. Tudo tem sua atenção. Tudo tem seu sorriso fácil, e me desculpa assumir, mas eu invejo todas essas coisas que te tem, assim, sem nenhum esforço. Sem ralar o tanto que eu ralei pra conseguir isso. Você não faz nenhuma questão que eu esteja por perto.

Fico procurando um motivo pra continuar acreditando nisso aqui. Só que eu nem sei se eu acredito mais. Nem se quero acreditar ainda. Aceito o que doer menos. Saudades daqueles tempos em que era impossível te ver, e a gente se encontrava todo dia. Saudades dos tempos em que você queria estar comigo em algum lugar. E a gente cruzava a cidade, de ônibus, pra fazer isso acontecer. Nem faz tanto tempo assim. Saudades daqueles dias em que você precisava de mim para que sua tarde fosse mais divertida. Saudades de me sentir especial pra você, como eu já fui um dia. "Se você não for, nem quero ir". Lembra? Saudades. Apenas.

Não quero ser sua parada obrigatória. Aquela conta que você fez e sabia que não podia pagar, mas faz das tripas coração pra se livrar logo. Não quero ser o seu boleto do financiamento, aquele que você encara com medo dos juros, rezando pra terminar de uma vez. Não quero ser aquela promessa que você fez pra Deus, e por isso acha que tem que me levar até o fim. Eu não sou sua penitência. Nem sou sua cruz. Eu não sou só um status no facebook, ou a garota que está feliz somente num porta-retrato velho com você.

Eu sou alguém que quis muito viver uma vida com você, e fez de tudo pra isso ser possível. Eu sou alguém que quer muito viajar o mundo com você. Que quer ter filhos e um cachorro com você. Que quer trocar de carro pra andar por aí, sem rumo, com você. Eu sou a pessoa que quer te levar pra jantar, no meu primeiro dia de trânsito depois que tirar a carteira. Eu sou a pessoa que quer crescer, e ser melhor, e em um dia importante colocar você nos meus agradecimentos - na frente de todo mundo. Eu quero ser a pessoa com você quer estar, porque você simplesmente gostar da minha companhia. Eu sou a pessoa que quer te levar pra viver a vida, mas não sabe como, porque você já tem uma vida - que está acontecendo sem mim, bem na minha frente. 

Preciso mandar um e-mail registrando oficialmente nossa conversa? E já que fiz, um pergunta, vou emendar com mais algumas, só pra você pensar: Quando vai sobrar um pouquinho de você pra mim? Até onde vai o seu amor? Onde ainda cabe, espremido, um pouco de mim na sua vida? Em quanto tempo você me responde?

E se você acordasse hoje, e não tivesse mais tempo?
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Ninguém merece um amor mais ou menos. Nem eu, que já tenho um.

Foto: Pinterest/Brandy Melville


Hoje é mais um daqueles dias que você sai e eu não sei pra onde. Sem recado no guardanapo, sem mensagem na caixa postal. É uma daquelas longas e arrastadas horas em que você vai e eu fico. Sozinha, para variar. E nem parece que mora mais alguém aqui comigo. É como se eu estivesse dividindo o apartamento com alguém que às vezes aparece, mas que paga em dia a sua parte, pelo menos. Tipo a Priscila que morou comigo no 310. Você é a minha nova Priscila.

(só que a gente divide um status no facebook).

Ainda pergunto pra mim mesma porque eu ainda fico. Porque eu não sumo sem avisar também. Porque eu não pago na mesma moeda. Você pagaria? Aliás, não custa perguntar: o que aconteceria se fosse eu, aí desse lado em que você está agora? Chegando quando você já estivesse dormindo, saindo pra almoçar e voltando às dez da noite, curtindo noites, domingos e feriados com pessoas que você nem sabe quem são - mas que aparentemente me fazem mais felizes do que você.

Fica a interrogação.

Ontem quando você fechou a porta do lado de fora, abri a minha lista de desejos. E fiquei sem saber se escrevia seu nome nela. Não sei o que exatamente dói menos num caso desses. Ser só dói, mas ser só com alguém que nunca aparece é mais agonizante ainda. E já que estou sozinha mesmo, me reservo o direito de votar por você.

Você que, de vez em quando, aparece. Que faz declarações de amor de mentira pra mim. Porque continuamos adiando a sua saída oficial? Me faça esse favor: vá embora de vez. Ninguém merece um amor mais ou menos. Ninguém merece fantasmas: pessoas que às vezes passam por aqui. Ninguém merece ser feliz só no porta-retrato. Qual a nossa última foto juntos? Ninguém merece estar com alguém que simplesmente não quer estar. (Que prova com a ausência, mas não admite). A diferença entre você e um covarde é que você tem acesso à toalha que larguei molhada em cima da cama. Ninguém merece saber da vida do outro pelos outros. Tem outros demais na nossa história. O mais engraçado é que tempos atrás, essa seria a história de qualquer outra pessoa, da qual nós dois tiraríamos sarro.

<<essa é a nossa história agora>>

Estive pensando em todas as coisas que eu perdi de você. Por ordem de prioridade listei assim: 

tempo
presença
e contato. ( f í s i c o ). 

E de todos os tipos de solidão, esse é o que mais me parece triste. Um meio termo. Alguém que não decide a vida que quer ter. Guardei algumas anotações debaixo do meu travesseiro e reguei com alguma coisa que escorreu de mim sem querer. Na falta de ser saudade, chamei de tristeza, mas pode ser decepção também. Eu coloquei tanta fé na gente, que me sinto aquele apostador idiota que dedica todas as fichas em uma coisa só.

E hoje a coisa só sou eu.
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O amor cabe em qualquer fachada

Foto: Tumblr



Oi amor. Ainda posso te chamar assim? É a força do hábito, pois é. Algumas coisas saem da gente, outras não. E hoje eu vim falar sobre você que está saindo da minha vida. Aos poucos. Dia após dia estamos esvaziando um lado do armário e do coração. É tão natural não é? Acontece nas melhores famílias. Vamos pensar que sim. Quem precisa morrer por isso? É a vida, afinal, com seus embarques e despedidas, como sempre. Nem me surpreendo mais. E é isso que me deixa mais surpresa nessa história toda. Essa injeção de "tudo bem" que digo pra mim mesma a cada minuto em que a gente se distancia mais.

Desculpa te incomodar. Sei que você deve estar fazendo algo importante agora. Pelo menos não está fazendo do outro lado do sofá. Vamos combinar: a pior ausência vem com uma presença morta e enfeitada do lado. Alguém que finge estar, mas nunca aparece. E desculpa a honestidade, mas essa é a última versão de você. Um apartamento dividido, boletos do condomínio para pagar, a parede da sala para pintar. Não quero pensar que nossas almofadas serviram apenas como um balcão de negócios, mas impossível não perceber que nossas últimas conversas se trataram apenas de transações. 

Eu sei que você deve estar rindo agora, imaginando "que garota louca". Tudo bem. A gente foi muito feliz em outros tempos. Fomos sim. Mas vamos admitir. O amor não precisa durar pra sempre. Somos uma prova disso, embora você insista em teimar. Parece muito com o título daquele filme: A ida dos que não ficaram ou a volta de quem sempre vai. Algo assim. 

Estive pensando por aqui, quantos de nós não devem existir por ai? Uma dupla de qualquer coisa com fachada de amor. E pensando bem, o amor cabe em qualquer fachada. Coube na gente, inclusive. E poderia caber mais se eu não estivesse me despedindo desse nosso outdoor. Eu sei do que você gosta, você sabe do que eu gosto, mas a gente não está gostando das mesmas coisas mais. Todo mundo vê. Não vamos fingir que estamos interessados um no outro, quando nem nos percebemos passar pelo meio desse nosso apartamento de 54 metros quadrados. A vida passa, meu bem. E você passou também. Eu posso ser o "meu bem" de outro alguém que esteja interessado em mais do que burocracia.

A vida é curta, amor. Me liga qualquer dia desses pra a gente conversar.
P.S: Eu te amo.
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Há quem diga que não vai dar certo

Foto encontrada em Brandy Melville/Pinterest

Eu vivo sumindo, percebeu? Acho que não. Você também faz isso, e faz muito bem. Juntos ocupamos um espaço imenso chamado: o vazio do coração do outro. Somos a capa de um livro esquecido nos fundos empoeirados da estante daquela sala que ninguém entra. E graças a Deus que não. Difícil explicar a bagunça que a gente é. Protagonistas figurantes daquele amor totalmente sem chances de vingar, para quem insisto em voltar de tempos em tempos. E assim comemoramos uns mil e tantos dias de vais, vens, vírgulas e fins. 

Você bate na porta, eu abro. E o resto das nossas linhas, a gente escreve em silêncio, quase sempre sem ninguém saber. Eu vivo sumindo, e acho que tenho medo de que um dia eu me encontre em alguma esquina de você. Quem me vê pelos cantos, pedindo mais uma dose de qualquer coisa com álcool pensa que ando sem ter para quem voltar. Acontece que eu sempre tenho você pra voltar. E sempre volto quando canso de mim. Quando canso de voar. Quando canso de fingir de ser só. E você me tem também. Do seu jeito ainda mais descarado que o meu.

Então amanheço o dia viajando para a cidade mais deserta e incerta distante de você. Eu não deixo recados, e você segue em frente. Um dia comum, talvez, não sei. E a gente não se despede, não se liga e não se pergunta. Sem cobranças, nem interrogações. A gente só vive o dia que a gente tem, e se tudo der certo, a gente se encontra no sábado. Sem que eu precise anotar na agenda ou mandar uma mensagem. Eu toco na campainha, você aperta o botão de abrir. E assim o resto da nossa vida acontece. Sou uma passageira que insiste em pegar o mesmo ônibus: você. E você, que prefere os trens, guarda o mesmo lugar na janela do terceiro vagão: então sou eu.

Algumas histórias não precisam de flores decorando as páginas ou a mesa da sala. A nossa história não tem história, só duas pessoas vivendo sem esperar nada em troca do dia seguinte. Sem status de relacionamento, sem álbum de fotografias, só um beijo de batom vermelho colado na parede, e na sua testa antes de sair. Há quem diga que nunca vai dar certo. E se não der, já deu até por tempo demais. O amor, ou o que quer que seja isso, já se pagou. Sem ruídos, sem feridas e à sós.

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Recado do dia

Mas a gente precisa aprender a sobreviver a todos os dias que não deram certo. A todas as roupas que não couberam. Aos amigos que fingiam ser e não eram. Aos amores que foram sem avisar.
A gente precisa escolher seguir em frente.
Apesar deles. Apesar de nós.